Juros elevados, operações de carry trade e preços das commodities favoreceram moedas latino-americanas em julho, enquanto o real brasileiro acumulou valorização diante da moeda norte-americana
O enfraquecimento do dólar abriu espaço para a valorização de diversas moedas da América Latina em julho de 2026. O movimento foi liderado pelo peso colombiano, enquanto o real brasileiro também se destacou entre as moedas de países emergentes.
Até 30 de julho, o peso colombiano acumulava valorização de 9,84% frente ao dólar e aparecia como a moeda de melhor desempenho no mundo durante o mês. Também registraram ganhos o real brasileiro, o guarani paraguaio, o peso dominicano, o peso mexicano, o colón da Costa Rica e o sol peruano.
O avanço das moedas regionais foi favorecido por uma combinação de fatores externos e domésticos. Entre eles estão a perda de força da moeda norte-americana, os juros elevados oferecidos por alguns países latino-americanos, a entrada de capital estrangeiro e a valorização de determinadas commodities.
Decisão do Federal Reserve pressionou o dólar
Um dos principais fatores por trás do movimento foi a decisão do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, de manter sua taxa de juros inalterada no final de julho.
Parte do mercado esperava uma postura mais rígida ou até mesmo uma nova elevação dos juros norte-americanos. Quando essa expectativa não se confirmou, o dólar perdeu parte de sua atratividade e investidores passaram a procurar ativos com maior potencial de rendimento em países emergentes.
Os juros dos Estados Unidos exercem forte influência sobre o mercado cambial mundial. Quando os títulos norte-americanos oferecem retornos elevados, investidores podem retirar dinheiro de mercados emergentes e direcioná-lo para os Estados Unidos.
Em sentido contrário, quando diminui a expectativa de aumento dos juros norte-americanos, cresce a procura por ativos de países que oferecem taxas mais altas.
Esse movimento pode favorecer moedas latino-americanas, mas também aumenta a dependência da região em relação às decisões do Federal Reserve.
Carry trade favorece moedas com juros elevados
A valorização do real e do peso colombiano também está relacionada às operações conhecidas como carry trade.
Nessa estratégia, investidores captam recursos em moedas ou mercados com juros menores e aplicam o dinheiro em países que oferecem taxas mais elevadas. O objetivo é aproveitar a diferença entre os rendimentos.
Brasil e Colômbia permanecem atrativos para esse tipo de operação por apresentarem juros reais elevados, isto é, taxas de juros que continuam positivas mesmo depois de descontada a inflação.
Analistas ouvidos pela Bloomberg Línea avaliaram que o real brasileiro e o peso colombiano apresentavam algumas das relações mais atraentes entre retorno e risco no universo das moedas emergentes.
Entretanto, o carry trade envolve riscos importantes. O investidor pode obter ganhos com os juros, mas perder dinheiro se a moeda do país onde realizou a aplicação sofrer uma desvalorização acentuada.
Por isso, mudanças no cenário político, fiscal ou internacional podem provocar uma rápida retirada de capital e inverter a trajetória das moedas.
Peso colombiano foi o principal destaque
O peso colombiano liderou o ranking regional em julho, com valorização próxima de 10% frente ao dólar até o dia 30.
Além do enfraquecimento da moeda norte-americana, o desempenho foi associado aos juros elevados, ao avanço dos preços da energia e à melhora da confiança dos investidores após mudanças no cenário político colombiano.
A Colômbia é um importante exportador de petróleo. Quando os preços internacionais da energia sobem, o país pode receber mais dólares com suas exportações, fortalecendo sua posição externa e aumentando a oferta de moeda estrangeira no mercado doméstico.
A expectativa de manutenção de juros elevados pelo banco central colombiano também contribuiu para aumentar o interesse de investidores internacionais.
Apesar disso, analistas alertaram que a valorização pode ter ocorrido de forma excessivamente rápida. Dificuldades para implementar ajustes fiscais ou mudanças na confiança política podem reduzir parte dos ganhos acumulados.
Real brasileiro acumulou valorização em julho
O real também esteve entre as moedas de destaque da América Latina.
No encerramento de 31 de julho, o dólar era negociado próximo de R$ 5,08. Durante o mês, o real acumulou valorização aproximada de 2,75% e apresentava ganho de cerca de 8,4% em 12 meses frente à moeda norte-americana.
A taxa básica brasileira permanecia elevada, mesmo após a redução da Selic de 14,50% para 14,25% ao ano em junho. O diferencial entre os juros brasileiros e norte-americanos continuava favorecendo a entrada de recursos em ativos locais.
O mercado de trabalho brasileiro também apresentou resultado mais forte do que o esperado em junho, contribuindo para a percepção de que o Banco Central poderia manter uma política monetária cautelosa.
Além dos juros, os preços do petróleo ajudaram a sustentar a moeda brasileira, porque o Brasil é um grande exportador de commodities e pode receber mais dólares quando aumenta o valor de suas vendas externas.
Situação fiscal ainda limita o real
Apesar da valorização registrada, o comportamento do real continua condicionado às contas públicas brasileiras.
O aumento das despesas, as dúvidas sobre o cumprimento das metas fiscais e a expansão da dívida pública podem elevar a percepção de risco do país. Quando isso acontece, investidores podem exigir retornos maiores ou reduzir sua exposição ao Brasil.
A incerteza política também tende a aumentar à medida que se aproxima o processo eleitoral de 2026.
Esses fatores podem limitar uma valorização mais duradoura do real, mesmo que os juros permaneçam elevados.
A trajetória da moeda brasileira dependerá do equilíbrio entre forças favoráveis, como o diferencial de juros e as exportações, e riscos internos relacionados à política fiscal, ao crescimento da dívida e ao ambiente eleitoral.
Commodities ajudam moedas da região
Muitos países da América Latina são grandes exportadores de petróleo, minério, cobre, produtos agrícolas e outras matérias-primas.
Quando os preços dessas mercadorias sobem, as empresas exportadoras recebem mais dólares. Parte desses recursos é convertida para a moeda local, aumentando a procura pela moeda do país e contribuindo para sua valorização.
Brasil e Colômbia foram favorecidos pela alta dos preços da energia. O Chile e o Peru, por sua vez, possuem forte exposição ao mercado de cobre e outros minerais.
Entretanto, os efeitos não são iguais para todos os países. Nações que dependem da importação de combustíveis podem enfrentar aumento de custos, inflação e pressão sobre suas contas externas quando o petróleo sobe.
Por essa razão, a valorização das commodities beneficia algumas moedas, mas pode prejudicar outras economias da região.
Guarani e peso dominicano também avançaram
O guarani paraguaio apareceu como a terceira moeda com melhor desempenho mensal entre as analisadas.
Nesse caso, a valorização foi associada à atuação do Banco Central do Paraguai. A redução da quantidade de moeda local disponível no sistema financeiro teria levado instituições a vender dólares para obter guaranis, fortalecendo a taxa de câmbio.
O peso dominicano também figurou entre as moedas de melhor desempenho. A economia da República Dominicana foi favorecida pela entrada de recursos provenientes do turismo, das remessas enviadas por trabalhadores no exterior, do investimento estrangeiro e das exportações de ouro.
Esses exemplos mostram que o enfraquecimento global do dólar foi importante, mas não explica sozinho o comportamento das moedas latino-americanas.
Fatores econômicos e políticos específicos de cada país tiveram papel decisivo.
Peso mexicano avança de forma mais moderada
O peso mexicano também ganhou valor, mas apresentou desempenho mais moderado.
A moeda foi apoiada pela redução gradual das incertezas relacionadas à revisão do acordo comercial entre México, Estados Unidos e Canadá, além da transferência de fábricas e cadeias produtivas para o território mexicano.
Esse processo, conhecido como nearshoring, ocorre quando empresas aproximam sua produção dos principais mercados consumidores para reduzir custos logísticos e riscos nas cadeias de suprimentos.
A proximidade com os Estados Unidos coloca o México em posição estratégica. Por outro lado, a economia mexicana também é especialmente vulnerável às mudanças na política comercial norte-americana.
Tarifas, restrições às importações ou dificuldades na revisão do acordo comercial podem provocar volatilidade no peso.
Nem todas as moedas registraram ganhos
Apesar do desempenho positivo da maioria das moedas analisadas, nem todos os países encerraram julho com valorização.
O quetzal da Guatemala permaneceu praticamente estável. Já o peso chileno, o lempira de Honduras, o peso uruguaio e o peso argentino apresentaram variações negativas.
O desempenho de cada moeda depende de uma combinação de fatores, incluindo:
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taxa de juros;
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inflação;
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situação fiscal;
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crescimento econômico;
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balança comercial;
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preço das commodities;
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estabilidade política;
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fluxo de capital estrangeiro;
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intervenções dos bancos centrais.
Dessa forma, mesmo em um período de queda do dólar, algumas moedas podem perder valor devido a problemas internos.
Dólar mais baixo pode ajudar a controlar a inflação
A valorização das moedas locais pode contribuir para reduzir a inflação na América Latina.
Muitos produtos e insumos são cotados em dólares, como combustíveis, fertilizantes, medicamentos, componentes industriais, máquinas e equipamentos.
Quando a moeda norte-americana fica mais barata, o custo dessas importações tende a diminuir. Esse efeito pode chegar aos preços pagos pelo consumidor, embora normalmente exista uma defasagem.
No Brasil, a queda do dólar pode ajudar a conter:
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preços de combustíveis;
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custos de alimentos ligados ao mercado internacional;
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fertilizantes e defensivos agrícolas;
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produtos eletrônicos;
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medicamentos importados;
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máquinas e equipamentos industriais.
O repasse, entretanto, não acontece de forma automática. Estoques comprados anteriormente, contratos, impostos, custos logísticos e margens empresariais podem retardar ou reduzir o impacto.
Exportadores podem perder competitividade
A queda do dólar também produz efeitos negativos para algumas empresas.
Exportadores brasileiros recebem grande parte de suas receitas em moeda estrangeira. Quando convertem os dólares para reais, uma cotação menor reduz o valor recebido na moeda nacional.
Empresas de mineração, petróleo, agronegócio, papel e celulose e proteínas animais podem sentir esse impacto, principalmente quando possuem custos elevados em reais.
Por outro lado, muitas companhias exportadoras utilizam contratos de proteção cambial e possuem parte de suas despesas em dólares, o que diminui os efeitos das oscilações.
Uma moeda mais valorizada também pode tornar os produtos brasileiros mais caros para compradores estrangeiros, reduzindo a competitividade em alguns mercados.
Viagens e compras internacionais ficam relativamente mais baratas
Para consumidores que pretendem viajar ao exterior ou realizar compras internacionais, a queda do dólar pode representar uma redução de custos.
Passagens, hospedagem, serviços digitais, equipamentos importados e despesas feitas no exterior tendem a ficar relativamente mais acessíveis quando o real se valoriza.
Entretanto, o valor efetivamente pago pelos consumidores também inclui impostos, tarifas bancárias, spread cambial e outras cobranças.
O dólar comercial observado no mercado financeiro não é o mesmo utilizado por pessoas físicas em casas de câmbio, cartões e transferências internacionais.
Cenário ainda exige cautela
Apesar do bom desempenho registrado em julho, a valorização das moedas latino-americanas não está garantida para os próximos meses.
Comentários mais duros de autoridades do Federal Reserve, aumento dos rendimentos dos títulos norte-americanos, inflação elevada nos Estados Unidos ou novas tensões geopolíticas podem fortalecer novamente o dólar.
No final de julho, declarações de integrantes do Fed favoráveis a uma política monetária mais rígida elevaram os juros dos títulos do governo norte-americano e aumentaram a expectativa de uma possível alta das taxas em setembro.
Juros norte-americanos mais elevados tendem a aumentar a atratividade dos ativos em dólar e podem provocar saída de recursos dos mercados emergentes.
Além disso, riscos políticos, fiscais e comerciais dentro da América Latina podem limitar os ganhos das moedas locais.
Tendência pode continuar, mas com volatilidade
Instituições financeiras avaliam que moedas emergentes podem continuar se beneficiando de um enfraquecimento mais amplo do dólar, especialmente aquelas que oferecem juros elevados e apresentam fundamentos externos favoráveis.
O Citi avaliou que o real e outras moedas latino-americanas poderiam continuar favorecidos por um dólar mais fraco e por uma melhora nos termos de troca até 2027.
Essa projeção, porém, não representa garantia de valorização contínua.
O mercado de câmbio reage rapidamente às decisões dos bancos centrais, aos dados de inflação e emprego, às eleições, às contas públicas e às tensões internacionais.
Por isso, os ganhos observados em julho podem ser parcialmente revertidos caso o cenário global se torne menos favorável aos países emergentes.
O que acompanhar nos próximos meses
A continuidade da valorização das moedas latino-americanas dependerá principalmente das decisões do Federal Reserve e dos bancos centrais da região.
Também serão importantes:
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a inflação dos Estados Unidos;
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o comportamento dos juros dos títulos norte-americanos;
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as decisões sobre a Selic no Brasil;
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o preço do petróleo, do cobre e de outras commodities;
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a situação fiscal dos países latino-americanos;
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as eleições e mudanças políticas;
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os conflitos internacionais;
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os fluxos de investimento para mercados emergentes.
O desempenho de julho demonstra que a América Latina continua atraente para investidores em busca de rendimentos mais elevados.
Entretanto, a mesma entrada de capital que fortalece rapidamente as moedas pode se inverter quando aumenta a aversão ao risco.
A queda do dólar trouxe benefícios para consumidores, importadores e governos preocupados com a inflação, mas também criou desafios para exportadores. O saldo final dependerá da duração do movimento e da capacidade de cada país de manter a confiança dos investidores.
As informações apresentadas possuem caráter jornalístico e educacional. O conteúdo não constitui recomendação de investimento, compra ou venda de moedas ou ativos financeiros.
31 de julho de 2026
Três Pontas, Minas Gerais
Redação Portal Três Pontas
Fontes principais: Bloomberg Línea, Federal Reserve, Reuters e dados de mercado cambial atualizados até 31 de julho de 2026.
