Servidora efetiva lotada na Tesouraria foi presa preventivamente em Varginha; investigação apura suspeitas de peculato e inserção de dados falsos em sistema, mas o valor definitivo e o funcionamento das movimentações ainda não foram esclarecidos

A investigação sobre possíveis irregularidades financeiras na Prefeitura de Três Pontas ganhou novos desdobramentos nesta quarta-feira, 5 de agosto.

Segundo informações atribuídas à Polícia Civil de Minas Gerais e divulgadas pelo g1 Sul de Minas e pelo Jornal da EPTV, o possível prejuízo aos cofres municipais é estimado, neste momento, em aproximadamente R$ 2,7 milhões.

A quantia ainda não é considerada definitiva. Conforme a Polícia Civil informou à reportagem regional, o valor total permanece sob investigação e poderá ser alterado à medida que as movimentações financeiras sejam individualizadas e analisadas.

A servidora efetiva Thamares Maria Moraes, de 31 anos, foi presa preventivamente durante uma operação realizada na terça-feira, dia 4, em Varginha.

De acordo com informações disponíveis no Portal da Transparência da Prefeitura de Três Pontas e reproduzidas pelo g1, ela foi admitida em março de 2019, ocupa o cargo de técnica administrativa e estava lotada na Secretaria Municipal de Fazenda, no setor de Tesouraria.

A prisão preventiva é uma medida cautelar e não representa condenação. A responsabilidade criminal somente poderá ser definida após a conclusão da investigação e o devido processo legal.

Polícia investiga possíveis crimes de peculato e inserção de dados falsos

Conforme as informações da Polícia Civil divulgadas pelo g1 e pela EPTV, a servidora poderá responder, inicialmente, pelos possíveis crimes de peculato e inserção de dados falsos em sistema de informações.

O Código Penal estabelece, de forma geral, que o peculato ocorre quando um funcionário público se apropria ou desvia dinheiro, valor ou bem de que tenha posse em razão do cargo. A legislação também alcança situações em que o agente, valendo-se da facilidade proporcionada pela função pública, subtrai ou contribui para que determinado valor seja subtraído.

Já o artigo 313-A do Código Penal trata da inserção, facilitação da inserção, alteração ou exclusão indevida de dados em sistemas informatizados ou bancos de dados da Administração Pública, quando realizada para obter vantagem indevida ou causar dano.

A menção a esses possíveis crimes representa uma linha inicial da investigação. O enquadramento definitivo dependerá das provas reunidas, da conclusão do inquérito, da manifestação do Ministério Público e das decisões do Poder Judiciário.

Até o momento, não foi esclarecido publicamente:

  • quais informações teriam sido inseridas, alteradas ou excluídas;
  • qual sistema municipal teria sido utilizado;
  • como os valores teriam sido movimentados;
  • quais contas bancárias foram atingidas;
  • nem durante quanto tempo as operações teriam ocorrido.

Mandados de prisão e de busca e apreensão

Além do mandado de prisão preventiva, a Polícia Civil cumpriu um mandado de busca e apreensão na residência da investigada.

Segundo a corporação, em informações divulgadas pelo g1 e pela EPTV, foram apreendidos diversos objetos de valor e determinado o sequestro de três veículos.

Reportagem da Equipe Positiva informou que, durante as buscas, teriam sido recolhidos dinheiro, joias, equipamentos eletrônicos, dispositivos de armazenamento de dados e o telefone celular da investigada. O veículo também noticiou a apreensão de um automóvel e duas motocicletas.

A apreensão permite que objetos e equipamentos sejam preservados para perícia e análise. Já o sequestro de bens é uma medida cautelar que pode impedir temporariamente a venda ou transferência do patrimônio enquanto sua origem e eventual ligação com os fatos são investigadas.

Essas medidas, isoladamente, não comprovam que os bens tenham sido adquiridos com recursos públicos. Qualquer vínculo patrimonial ainda precisa ser demonstrado pelas autoridades.

A investigada foi encaminhada ao sistema prisional e permanece à disposição da Justiça. O caso tramita sob sigilo judicial e as investigações continuam.

O que informou a Prefeitura

Em nota oficial, a Prefeitura de Três Pontas declarou que os indícios de possíveis irregularidades foram identificados durante procedimentos de auditoria interna.

A Administração Municipal informou que adotou imediatamente as medidas administrativas consideradas necessárias, incluindo o afastamento preventivo da servidora investigada e o encaminhamento do caso às autoridades responsáveis pela apuração.

A Prefeitura afirmou ainda que está colaborando com as investigações e fornecendo as informações solicitadas para o esclarecimento dos fatos.

Segundo a manifestação municipal, detalhes sobre o período das movimentações, o valor eventualmente envolvido e a extensão dos possíveis prejuízos ainda dependem da conclusão das diligências.

A Administração também declarou que não divulgará, neste momento, outras informações específicas, para não comprometer o andamento da investigação e em respeito ao devido processo legal e à presunção de inocência.

Defesa ainda não teve acesso ao processo

O advogado João Paulo Figueiredo Martins, responsável pela defesa da servidora, informou à EPTV que ainda não havia obtido acesso ao conteúdo da investigação.

Segundo a manifestação reproduzida pelo g1, a defesa protocolou um pedido de habilitação nos autos, que tramitam sob sigilo. Depois de analisar o processo, o advogado pretende solicitar a liberdade da investigada.

A manifestação da defesa é necessária para assegurar o contraditório e o tratamento jornalístico equilibrado do caso.

O valor de R$ 2,7 milhões é uma estimativa

Embora seja expressivo, o montante de aproximadamente R$ 2,7 milhões deve ser apresentado como uma estimativa preliminar atribuída à investigação, e não como valor definitivamente desviado.

A análise ainda precisa esclarecer:

  • quantas movimentações foram identificadas;
  • quais operações eram legítimas ou irregulares;
  • o período alcançado pela auditoria;
  • as contas de origem e de destino;
  • eventuais estornos ou devoluções;
  • possíveis valores bloqueados;
  • quantias eventualmente recuperadas;
  • e se outras pessoas tiveram alguma participação.

Por isso, o valor poderá ser confirmado, reduzido ou ampliado no decorrer das investigações.

Como as movimentações poderiam ter passado pelos controles?

A confirmação de que a investigada estava lotada na Tesouraria aumenta a necessidade de esclarecer quais funções e acessos ela efetivamente possuía.

Trabalhar no setor, por si só, não permite concluir que uma pessoa tenha autorização para realizar sozinha todas as etapas de um pagamento.

A investigação deverá verificar:

  • quais sistemas estavam liberados para o perfil da servidora;
  • se ela podia incluir ou alterar beneficiários;
  • se tinha acesso ao sistema contábil;
  • se preparava ordens ou arquivos de pagamento;
  • se possuía acesso às contas bancárias municipais;
  • se podia confirmar transferências;
  • quem autorizava os pagamentos;
  • e quem realizava a conciliação bancária.

Em uma estrutura de controle adequada, diferentes pessoas deveriam participar das etapas mais sensíveis.

Uma única pessoa não deveria conseguir, sem supervisão independente:

  1. cadastrar ou alterar um credor;
  2. modificar dados bancários;
  3. registrar ou liquidar uma despesa;
  4. preparar uma ordem de pagamento;
  5. autorizar a movimentação;
  6. alterar registros eletrônicos;
  7. conferir o extrato;
  8. revisar a própria operação.

Caso as suspeitas sejam confirmadas, será necessário descobrir se houve concentração de funções, falha de supervisão, compartilhamento de credenciais, autorização sem conferência, vulnerabilidade tecnológica ou alguma combinação desses fatores.

A licitação não controla sozinha o pagamento

Outra questão importante é que a licitação e o pagamento representam etapas diferentes da administração pública.

A licitação disciplina a seleção do fornecedor e a contratação de produtos, serviços ou obras. A saída efetiva do dinheiro acontece posteriormente, durante a execução orçamentária e financeira.

De forma simplificada, a despesa pode passar pelo seguinte percurso:

contratação ou obrigação → empenho → liquidação → ordem de pagamento → execução financeira → registro e conciliação bancária

Isso significa que uma contratação pode estar formalmente correta, mas uma irregularidade ainda pode ocorrer posteriormente, caso haja manipulação na liquidação, no cadastro do beneficiário, na preparação da ordem bancária, na autorização ou no registro eletrônico.

No caso de Três Pontas, contudo, a Polícia Civil ainda não explicou publicamente em qual dessas etapas as possíveis irregularidades teriam ocorrido.

Inserção de dados falsos pode ser ponto central da investigação

A informação de que a Polícia Civil analisa inicialmente a hipótese de inserção de dados falsos indica que os sistemas informatizados e os registros eletrônicos provavelmente terão importância na apuração.

Essa é uma interpretação técnica baseada no possível enquadramento mencionado, e não uma conclusão sobre o método utilizado.

Os investigadores poderão comparar:

  • usuários que acessaram os sistemas;
  • datas e horários das operações;
  • computadores e dispositivos utilizados;
  • alterações realizadas nos registros;
  • documentos que sustentavam os pagamentos;
  • beneficiários registrados;
  • contas bancárias de destino;
  • extratos municipais;
  • e trilhas de auditoria.

Os equipamentos e dispositivos apreendidos também poderão ser submetidos a perícia, respeitadas as autorizações judiciais e os limites da investigação.

Perguntas que ainda precisam ser respondidas

Apesar dos novos dados divulgados, pontos fundamentais continuam em aberto:

  1. Em que período ocorreram as movimentações investigadas?
  2. Quantas operações formam a estimativa de R$ 2,7 milhões?
  3. Que informações teriam sido inseridas ou alteradas?
  4. Qual sistema municipal teria sido utilizado?
  5. Quais contas públicas foram atingidas?
  6. Os recursos eram próprios ou vinculados a áreas específicas?
  7. Existia dupla autorização bancária?
  8. Quem preparava, autorizava e revisava os pagamentos?
  9. Como eram realizadas as conciliações bancárias?
  10. Houve utilização de credenciais de terceiros?
  11. Existem outras pessoas investigadas?
  12. Algum valor foi bloqueado ou recuperado?
  13. Os bens apreendidos possuem relação comprovada com as movimentações?
  14. Exercícios financeiros anteriores também serão auditados?
  15. Que medidas de segurança foram adotadas depois da identificação dos indícios?

Transparência e presunção de inocência

O caso possui elevado interesse público porque envolve uma estimativa milionária de possível prejuízo ao Município.

A população tem direito a informações claras sobre a administração dos recursos públicos e sobre as medidas adotadas para prevenir novas ocorrências.

Ao mesmo tempo, a divulgação deve respeitar a presunção de inocência. A servidora foi presa preventivamente e está sob investigação, mas não existe, até o momento, condenação definitiva.

A apuração também precisará individualizar as responsabilidades e distinguir uma eventual conduta pessoal de possíveis falhas institucionais.

O Portal Três Pontas continuará acompanhando as manifestações da Polícia Civil, da Prefeitura, do Ministério Público, do Poder Judiciário e da defesa.

Neste momento, as principais perguntas são:

Como as movimentações investigadas teriam sido realizadas?

Por quanto tempo teriam ocorrido e quais controles não conseguiram impedi-las ou detectá-las anteriormente?


Fontes consultadas

Esta reportagem foi elaborada com base nas informações disponíveis até 5 de agosto de 2026, às 14h13.

Polícia Civil de Minas Gerais — PCMG
Informações atribuídas à corporação e divulgadas pelo g1 Sul de Minas e pelo Jornal da EPTV sobre o prejuízo estimado em aproximadamente R$ 2,7 milhões, a prisão preventiva, os mandados de busca e apreensão, o sequestro de veículos, os possíveis enquadramentos criminais e o sigilo judicial.

g1 Sul de Minas e Jornal da EPTV
Reportagem publicada em 5 de agosto de 2026 sobre a investigação envolvendo a Prefeitura de Três Pontas, incluindo informações da Polícia Civil, dados funcionais disponíveis no Portal da Transparência e manifestação da defesa.

Prefeitura Municipal de Três Pontas
Notas oficiais sobre a identificação dos indícios durante auditoria interna, o afastamento preventivo, a comunicação às autoridades e a colaboração com as investigações.

Portal da Transparência da Prefeitura de Três Pontas
Dados funcionais relacionados ao cargo, à data de admissão e à lotação da servidora, conforme consulta reproduzida pelo g1.

Equipe Positiva
Reportagens sobre o cumprimento dos mandados, a prisão em Varginha e os objetos e veículos apreendidos durante as diligências.

Código Penal brasileiro — Decreto-Lei nº 2.848/1940
Consultado para a contextualização geral dos crimes de peculato e inserção de dados falsos em sistema de informações. O enquadramento definitivo dependerá da conclusão das autoridades competentes.


Nota de transparência editorial: A investigação tramita sob sigilo judicial, e nem todos os documentos estão publicamente disponíveis. O valor de R$ 2,7 milhões é uma estimativa preliminar atribuída à Polícia Civil e ainda pode ser modificado. A prisão preventiva não representa condenação. A investigada tem direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência.

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