Estoques globais reduzidos, instabilidade climática e demora na recuperação da oferta devem manter o mercado volátil, mesmo diante da expectativa de uma safra brasileira elevada em 2026

Redação Portal Três Pontas

O consumidor pode demorar a sentir um alívio consistente no preço do café. Embora as cotações internacionais tenham recuado em alguns momentos de 2026, especialistas do setor avaliam que a combinação de estoques reduzidos, riscos climáticos e limitações na oferta pode manter os preços elevados e sujeitos a fortes oscilações por pelo menos mais dois anos.

A projeção ganhou força após novas preocupações com o clima nas principais regiões produtoras. O mercado acompanha especialmente o Brasil e o Vietnã, os dois maiores fornecedores mundiais, porque qualquer problema nas lavouras desses países pode reduzir a disponibilidade global do grão.

Uma análise divulgada em julho apontou que os preços internacionais podem continuar altos por pelo menos dois anos, diante da volatilidade do mercado, dos estoques apertados e dos riscos associados ao fenômeno El Niño.

Mercado registrou queda, mas voltou a reagir

O preço internacional do café apresentou trajetória de queda durante parte do primeiro semestre de 2026. Em junho, o Indicador Composto da Organização Internacional do Café, conhecido como I-CIP, registrou média de 248,90 centavos de dólar por libra-peso, recuo de 2,8% em relação a maio.

No início daquele mês, o indicador chegou a 231,96 centavos de dólar por libra-peso, o menor patamar em quase dois anos. Entretanto, a tendência foi rapidamente revertida. Até o encerramento de junho, o preço havia subido 17,4%, alcançando 272,39 centavos de dólar por libra-peso.

Essa movimentação mostra que o mercado continua extremamente sensível a notícias relacionadas ao clima, à colheita e aos estoques disponíveis.

As cotações podem recuar diante da expectativa de uma boa produção e voltar a subir rapidamente quando surgem sinais de atraso na colheita, problemas de qualidade ou ameaça de eventos climáticos extremos.

Chuvas atrasaram a colheita brasileira

Segundo a Organização Internacional do Café, chuvas acima da média em importantes regiões produtoras brasileiras atrasaram a colheita, afetaram a qualidade dos grãos e provocaram perdas localizadas.

Ao mesmo tempo, cresceram as preocupações com a possível formação de um episódio mais intenso de El Niño no final de 2026. Esse fenômeno pode alterar os regimes de chuva e temperatura em países produtores, aumentando a incerteza sobre as próximas safras.

O café é uma cultura especialmente sensível às condições climáticas. Períodos de seca podem prejudicar a florada e o desenvolvimento dos frutos, enquanto chuvas excessivas durante a colheita podem comprometer a qualidade e dificultar a secagem dos grãos.

Geadas, ondas de calor e mudanças bruscas na distribuição das chuvas também podem provocar perdas que afetam não apenas a produção do ano corrente, mas a capacidade produtiva dos ciclos seguintes.

Estoques continuam em níveis baixos

Outro fator que sustenta os preços é a reduzida quantidade de café armazenada nos mercados internacionais.

Em junho, os estoques certificados de café arábica nos Estados Unidos caíram 13,3% em relação a maio, para aproximadamente 410 mil sacas, o menor nível desde fevereiro de 2024. Os estoques de robusta certificados em Londres apresentaram recuperação, mas permaneceram limitados.

Quando os estoques estão baixos, o mercado possui menos capacidade de absorver problemas inesperados na produção. Dessa forma, qualquer atraso na colheita ou redução das exportações pode gerar reação mais intensa nas bolsas de mercadorias.

Os estoques funcionam como uma espécie de reserva de segurança. Quando essa reserva diminui, aumenta a vulnerabilidade do mercado e também a volatilidade dos preços.

Exportações mundiais recuaram

Os embarques internacionais também demonstraram sinais de aperto.

Em maio de 2026, as exportações globais de café verde somaram aproximadamente 10,8 milhões de sacas, queda de 4,1% em comparação com o mesmo mês do ano anterior. As exportações de cafés naturais brasileiros recuaram 17,2%, para 2,73 milhões de sacas.

Considerando todas as formas de café, os embarques mundiais alcançaram 12,38 milhões de sacas em maio, retração de 3,2% na comparação anual.

A redução das exportações não significa necessariamente que a produção mundial esteja entrando em colapso. Parte da queda pode decorrer do ritmo da colheita, do calendário comercial, dos preços, da disponibilidade nos portos e das decisões de venda dos produtores.

Ainda assim, em um mercado com estoques reduzidos, a diminuição dos embarques contribui para ampliar o receio de escassez.

Brasil pode colher uma safra recorde

O cenário apresenta uma aparente contradição. Ao mesmo tempo que o mercado enfrenta estoques baixos e riscos climáticos, o Brasil caminha para uma das maiores colheitas de café de sua história.

O IBGE estimou, em junho, uma produção brasileira de aproximadamente 66 milhões de sacas de 60 quilos em 2026. O volume representa crescimento de 14,7% em relação a 2025 e pode estabelecer um novo recorde na série histórica da instituição.

A primeira estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento havia apontado uma produção de 66,2 milhões de sacas, aumento de 17,1% sobre o ciclo anterior. A própria Conab avaliou que os preços poderiam permanecer elevados mesmo com uma safra recorde no Brasil e boas perspectivas de produção no Vietnã.

Isso acontece porque uma boa safra brasileira não resolve imediatamente todos os desequilíbrios do mercado mundial. Parte da produção já está comprometida por contratos, enquanto estoques precisam ser recompostos depois de anos de oferta apertada.

Além disso, a qualidade dos grãos colhidos e a quantidade efetivamente disponível para exportação também influenciam a formação dos preços.

Recuperação da oferta exige tempo

A produção de café não pode ser ampliada rapidamente como ocorre em algumas culturas anuais.

Depois que uma nova lavoura é plantada, são necessários anos para que o cafeeiro atinja uma produção comercial relevante. Mesmo quando os preços estão elevados e incentivam novos investimentos, a resposta da oferta acontece de forma lenta.

Também existem limitações relacionadas à disponibilidade de áreas adequadas, mão de obra, irrigação, fertilizantes, crédito e infraestrutura.

Por essa razão, o mercado pode levar mais de uma safra para reconstruir os estoques e alcançar uma relação mais confortável entre oferta e demanda.

A perspectiva de preços pressionados por até dois anos não significa que as cotações subirão continuamente. O mais provável é um período de forte volatilidade, com alternância entre quedas e altas, dependendo das previsões climáticas e dos resultados das colheitas.

Preço do grão demora a chegar ao consumidor

Mesmo quando a matéria-prima começa a ficar mais barata, a redução pode levar meses para aparecer nos supermercados e cafeterias.

A Nestlé informou, no final de junho, que poderia reduzir alguns preços diante da queda no custo dos grãos. Entretanto, especialistas do setor destacam que mudanças nas cotações internacionais podem levar nove meses ou mais para chegar ao consumidor, devido aos estoques existentes, aos contratos de compra e ao processo de torrefação e distribuição.

As empresas normalmente compram café com antecedência. Portanto, o produto vendido hoje pode ter sido adquirido em um período no qual o grão estava mais caro.

Além da matéria-prima, o preço final inclui custos de embalagem, energia, transporte, salários, impostos, aluguel, financiamento e margens comerciais. Por isso, uma queda do café nas bolsas não gera necessariamente uma redução imediata e proporcional nas prateleiras.

Consumidor pode continuar pagando mais

Para o consumidor brasileiro, o cenário indica que o café pode continuar pesando no orçamento doméstico, mesmo com eventuais quedas temporárias.

Indústrias e supermercados podem realizar promoções ou reduzir preços de determinadas marcas, mas uma diminuição ampla e duradoura dependerá da combinação de vários fatores:

  • boas safras consecutivas;

  • normalização das condições climáticas;

  • recomposição dos estoques mundiais;

  • redução dos custos de produção e transporte;

  • estabilidade do dólar;

  • menor volatilidade nas bolsas internacionais.

Sem essa combinação, o alívio tende a ser limitado e irregular.

O consumidor também pode perceber diferenças entre categorias. Cafés especiais, produtos com maior presença de arábica e marcas importadas podem permanecer mais caros, enquanto indústrias podem ampliar o uso de blends ou de grãos robusta e conilon para reduzir custos.

Produtores enfrentam oportunidades e riscos

Para os cafeicultores, preços elevados podem representar aumento da receita. No entanto, o resultado financeiro depende da produtividade, da qualidade do produto, do custo de produção e da estratégia de comercialização.

Fertilizantes, defensivos, energia, mão de obra e financiamento também encareceram nos últimos anos. Assim, nem toda valorização da saca se transforma diretamente em maior lucro.

O produtor que vende toda a colheita antecipadamente pode deixar de aproveitar uma eventual alta posterior. Por outro lado, quem espera demais pode enfrentar uma queda das cotações ou problemas de armazenagem.

Nesse ambiente, ferramentas como contratos futuros, opções, vendas escalonadas e proteção cambial podem ajudar a reduzir riscos. Essas operações, porém, exigem planejamento e conhecimento técnico.

Minas Gerais tem importância central no cenário

A evolução do mercado possui impacto direto sobre Minas Gerais, principal estado produtor de café do país.

As condições climáticas nas regiões mineiras são acompanhadas por compradores, exportadores e investidores de todo o mundo. Qualquer alteração relevante na florada, no desenvolvimento das lavouras ou no ritmo da colheita pode provocar movimentos nas cotações.

Para municípios ligados à cafeicultura, preços elevados podem aumentar a circulação de renda, os investimentos nas propriedades e a demanda por serviços. Entretanto, perdas de produtividade ou qualidade podem reduzir os benefícios esperados.

O cenário também é relevante para cooperativas, armazéns, transportadoras, exportadores, fornecedores de insumos e trabalhadores rurais.

Mercado deve continuar volátil

A principal conclusão é que o café pode permanecer caro e instável, mesmo com a expectativa de aumento da produção brasileira.

Uma safra elevada pode ajudar a ampliar a oferta e conter parte das altas, mas ainda será necessário recompor estoques e superar os riscos climáticos que afetam os principais países produtores.

A possibilidade de preços pressionados por até dois anos deve ser interpretada como uma projeção sujeita a mudanças. Boas colheitas consecutivas podem antecipar a normalização. Em sentido contrário, secas, excesso de chuvas, geadas ou problemas logísticos podem prolongar o período de preços elevados.

Para produtores, empresas e consumidores, o cenário exige planejamento e atenção às condições do mercado.

Fontes principais: Organização Internacional do Café, IBGE, Conab e informações de mercado publicadas por agências internacionais.

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